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Relatos

A Conferência dos Pássaros: a Jornada de Attar ao Eu

Por Raşit Akgül 3 de abril de 2026 5 min de leitura

A Conferência dos Pássaros: a Jornada de Attar ao Eu

“Éramos trinta pássaros (si murgh). E o Simurgh éramos nós.” Attar, Mantiq al-Tayr

O Mantiq al-Tayr (A Linguagem dos Pássaros), de Farid al-Din Attar (c. 1145-1221), é uma das obras-primas da literatura sufi e da literatura mundial. Poema alegórico de aproximadamente 4.500 dísticos, narra a jornada de milhares de pássaros em busca de seu rei mítico, o Simurgh, através de sete vales que representam os estágios da jornada espiritual. É, simultaneamente, uma aventura épica, um tratado de psicologia espiritual e uma meditação sobre a natureza da busca humana por Deus.

O Poeta

Farid al-Din Attar nasceu em Nishapur, na Pérsia, por volta de 1145. Era farmacêutico de profissão (o nome “Attar” significa “perfumista” ou “farmacêutico”). Segundo a tradição, sua conversão à vida espiritual aconteceu quando um dervixe entrou em sua loja e lhe disse: “Tudo o que tens aqui, teus perfumes e remédios, tu podes carregar contigo ao morrer?” Attar respondeu que não. O dervixe disse: “Então prepara algo que possas levar.”

Attar é considerado um dos três maiores poetas místicos persas, junto com Rumi e Hafiz. Rumi reconheceu sua dívida para com Attar: “Attar percorreu as sete cidades do amor. Nós ainda estamos numa esquina de um beco.”

A História

A narrativa começa com uma assembleia de todos os pássaros do mundo. A hudhud (poupa), que no Alcorão é a mensageira do rei Salomão, é eleita líder e anuncia que os pássaros têm um rei: o Simurgh, um pássaro mítico de beleza indescritível que habita no Monte Qaf, no fim do mundo.

Os pássaros decidem empreender a jornada em busca de seu rei. Mas imediatamente, desculpas e resistências surgem. Cada pássaro representa um tipo humano, um apego, um obstáculo espiritual:

O rouxinol está apegado ao amor terreno (a rosa) e não quer deixá-la.

O papagaio está preso na gaiola dourada do conforto material.

O pavão está perdido na beleza de suas próprias penas (vaidade).

O falcão está orgulhoso de sua relação com o rei terreno (poder e status).

A garça está apegada à água (prazer sensorial).

A coruja guarda seu tesouro nas ruínas (avareza).

A hudhud responde a cada desculpa com uma história que revela a natureza ilusória do apego e convida o pássaro a ultrapassar seus limites.

Os Sete Vales

Os pássaros que aceitam o chamado devem atravessar sete vales, cada um correspondendo a um estágio da jornada espiritual:

1. O Vale da Busca (Talab)

O primeiro vale é marcado pela determinação e pela sede. O buscador deve abandonar tudo o que o prende e lançar-se na jornada com todo o seu ser. É o estágio do arrependimento e da decisão.

2. O Vale do Amor (Ishq)

No segundo vale, o amor toma conta do buscador. A razão perde o controle e o coração se incendeia. É o estágio da paixão que consome tudo o que não é essencial.

3. O Vale do Conhecimento (Ma’rifa)

O terceiro vale traz o conhecimento direto, não intelectual mas experiencial. Cada buscador percebe a verdade de acordo com sua capacidade. O que era fé torna-se visão.

4. O Vale do Desapego (Istighna)

No quarto vale, o buscador se liberta de todos os apegos, incluindo o apego aos estados espirituais. Riqueza e pobreza, elogio e censura, tudo se torna igual.

5. O Vale da Unidade (Tawhid)

No quinto vale, o buscador percebe a Unidade por trás da multiplicidade. Todas as coisas se revelam como manifestações de uma única Realidade.

6. O Vale do Assombro (Hayra)

No sexto vale, o buscador é tomado por perplexidade e maravilhamento. O que pensava saber se dissolve. Não sabe se existe ou não existe, se está desperto ou dormindo.

7. O Vale da Aniquilação e da Pobreza (Fana wa Faqr)

No sétimo e último vale, o eu do buscador se dissolve. Resta a pobreza espiritual absoluta: a alma que não possui nada, nem a si mesma.

O Clímax

Dos milhares de pássaros que partiram, apenas trinta completam a jornada. Chegam ao Monte Qaf, exaustos, despidos de tudo, e são admitidos na presença do Simurgh. E então acontece a revelação:

Si murgh em persa significa “trinta pássaros.” O Simurgh que buscavam era eles mesmos. Os trinta pássaros olham para o Simurgh e veem a si mesmos. Olham para si mesmos e veem o Simurgh. São, simultaneamente, eles e o Simurgh.

“Embora estivessem completamente perdidos e perplexos, viram-se a si mesmos como o Simurgh. E quando olharam para o Simurgh, era precisamente esses trinta pássaros que ali estavam.”

Esse é o paradoxo central da jornada sufi: o buscador descobre que o que buscava estava dentro dele desde o início. A jornada exterior é, na verdade, uma jornada interior. O Deus que se busca em montanhas distantes habita no próprio coração.

O Significado

A Conferência dos Pássaros é uma alegoria completa da jornada sufi:

Os pássaros são as almas humanas. O Simurgh é Deus (ou a Realidade última). Os sete vales são os estágios da alma. As desculpas dos pássaros são os obstáculos do ego (nafs). A hudhud é o mestre espiritual. A jornada é o caminho sufi (tariqa). E o clímax é a aniquilação (fana’) seguida pela subsistência (baqa’): a dissolução do eu separado e a descoberta de que “Eu” e “Deus” não são dois.

Para o leitor brasileiro que busca compreender o Sufismo, a Conferência dos Pássaros é talvez a melhor porta de entrada: uma história que fala diretamente ao coração, sem necessidade de conhecimento técnico prévio.

Fontes

  • Attar, Mantiq al-Tayr (c. 1177)
  • Attar, Tadhkirat al-Awliya (c. 1220)
  • Attar, Ilahi-nama (c. 1180)
  • Hellmut Ritter, The Ocean of the Soul (1955)
  • Dick Davis, The Conference of the Birds (tradução, 1984)

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Citar este artigo

Raşit Akgül. “A Conferência dos Pássaros: a Jornada de Attar ao Eu.” sufiphilosophy.org, 3 de abril de 2026. https://sufiphilosophy.org/pt/relatos/a-conferencia-dos-passaros.html