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Poemas

O Amor Me Tirou de Mim Mesmo

Por Raşit Akgül 3 de abril de 2026 4 min de leitura

O Amor Me Tirou de Mim Mesmo

“O amor me tirou de mim mesmo. Precisei do amor, é o amor que preciso.” Yunus Emre

Yunus Emre, o grande poeta popular da Anatólia do século XIII, escreveu em turco simples e direto, numa época em que a poesia “séria” era escrita em persa ou árabe. Seus versos falam do amor divino com a naturalidade de quem conversa com um amigo. Este poema é um dos mais conhecidos de sua obra.

O Poema

O amor me tirou de mim mesmo, é do amor que preciso, do amor. O amor encheu-me todo de amor, é do amor que preciso, do amor.

Queimei, tornei-me cinza no amor, chorei lágrimas de sangue no amor. Todos os amantes estão no fogo, é do amor que preciso, do amor.

O amor é a minha pátria, o amor é a minha religião. O amor é o meu fardo e o meu remédio, é do amor que preciso, do amor.

Venho e vou pelo caminho do amor, falo a língua do amor. O amor é a minha caravana, é do amor que preciso, do amor.

O pobre Yunus é cativo do amor, preso desde a cabeça aos pés. Se me perguntarem o que busco, é o amor que preciso, do amor.

Adaptado dos Ilahis (Hinos) de Yunus Emre.

Contexto

Yunus Emre viveu na Anatólia durante um dos períodos mais turbulentos da história da região: as invasões mongóis, a fragmentação política, a miséria generalizada. Nesse cenário de destruição, ele encontrou algo indestrutível: o amor (ask).

A tradição conta que Yunus era um camponês analfabeto que buscou o mestre sufi Taptuk Emre. Durante anos serviu no dergah (alojamento sufi), carregando lenha, sem receber nenhum ensinamento verbal. Um dia, a transformação aconteceu. A lenha que ele carregou durante anos era, ela mesma, o ensinamento: a paciência, a entrega, o serviço silencioso.

A Dissolução do Eu

“O amor me tirou de mim mesmo” (Ask beni benden aldi): esta é a experiência central do poema. O amor não é algo que o buscador possui. É algo que o possui. Não é uma emoção entre outras. É uma força que desmonta a identidade construída pelo ego, peça por peça, até que nada reste senão o próprio amor.

Na psicologia sufi, o ego (nafs) é como uma casca que envolve o coração. Essa casca é feita de identificações: “eu sou isso, eu quero aquilo, eu pertenço a esse grupo.” O amor divino derrete essa casca. Não pela força, mas pelo calor. Como o sol derrete o gelo sem violência.

Amor como Pátria e Religião

“O amor é a minha pátria, o amor é a minha religião.” Essa declaração não é relativismo. Yunus não está abandonando sua fé islâmica nem sua identidade. Está dizendo algo mais profundo: que a essência de toda pertença genuína é o amor. A pátria verdadeira do ser humano não é um território geográfico, mas o estado do coração unido ao seu Senhor. A religião verdadeira não são apenas formas externas, mas o amor que lhes dá vida.

Essa perspectiva ecoa a compreensão de Ibn Arabi sobre o coração capaz de toda forma: quando o amor é genuíno, ele não estreita o ser humano, mas o expande.

O Fardo e o Remédio

“O amor é o meu fardo e o meu remédio.” Esta é uma das linhas mais honestas da poesia sufi. O amor não é apenas doçura. É também peso, dor, responsabilidade. É a ferida que cura, a doença que é a própria saúde. Quem ama de verdade sabe que o amor exige tudo, e que essa exigência total é, paradoxalmente, o maior alívio.

O dhikr (lembrança de Deus) funciona da mesma forma: é um esforço que alivia. Uma prática que exige disciplina, mas cuja prática é descanso. Porque o coração foi feito para lembrar, e lembrar é voltar para casa.

O Pobre Yunus

A assinatura poética de Yunus Emre é sempre humilde: “o pobre Yunus” (miskin Yunus), “o estranho Yunus,” “Yunus, o cativo.” Essa auto-humilhação não é falsa modéstia. É o reconhecimento de que diante do amor divino, nenhuma grandeza humana importa. Apenas a pequenez sincera abre a porta.

Para o leitor brasileiro, a poesia de Yunus tem uma familiaridade natural. Seus versos têm o ritmo de uma canção popular, a simplicidade de um provérbio, a profundidade de uma oração. Não pedem erudição para serem compreendidos. Pedem apenas um coração aberto.

Fontes

  • Yunus Emre, Divan-i Ilahiyat (c. 1300)
  • Annemarie Schimmel, Mystical Dimensions of Islam (1975)
  • Talat Halman, Yunus Emre and His Mystical Poetry (1972)

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Raşit Akgül. “O Amor Me Tirou de Mim Mesmo.” sufiphilosophy.org, 3 de abril de 2026. https://sufiphilosophy.org/pt/poemas/o-amor-me-tirou-de-mim.html